domingo, 11 de outubro de 2015

O Prisioneiro da Árvore, de Marion Zimmer Bradley

O presente volume constitui a segunda parte do monumental romance As Brumas de Avalon. Significativo da sua qualidade e simultânea popularidade, é o facto de alguns paises já se terem atingido a vigésima edição desta obra tão favoravelmente acolhida pela crítica mundial.


«Lemos o primeiro livro,
A Senhora da Magia. Esperamos pelos restantes para preencher a nossa avidez de mistério e de saudade daquela sabedoria inicial, que fomos perdendo na assimilação de culturas, quando éramos um com a terra.»
João Mattos e Silva,
Letras & Letras, Mai. 88

«Uma perspectiva alucinante e vertiginosa, de uma época onde tudo era possível através dos poderes das mulheres.»Mulheres, Fev. 88


«O ponto de vista das mulheres, sobre este ciclo de lendas, é, de facto, original e cativante. A prová-lo está o enorme sucesso editorial que a obra de Bradley suscita em toda a parte.»
A Capital, 26 Nov. 87

«Uma fascinante visão do mágico, do místico, do fantástico de eras perdidas do mito.»
D. S. Bruno,
Semanário, 22 Dez. 87 

«... um livro a reter como um retrato relativamente fiel de uma tradição, onde o fio da lenda (haverá coisas tão agradavelmente reais como as lendas arturianas?) é contado a partir de outra perspectiva, de outro olhar sobre o destino da História e do sentido de Avalon.»
Francisco José Veigas, Expresso, 5 Mar. 88 




Eis que chegamos ao fim do famoso clássico sobre a lenda do Rei Artur. A fama de As Brumas de Avalon é brutal, não só na forma como esta versão se tornou tão popular mas também no seu impacto na Literatura.
Inúmeros, inúmeros livros foram e são altamente influenciados por Marion Zimmer Bradley ter explorado tanto a tradição celta, o paganismo, o misticismo e a perspectiva feminina e feminista na acção.
Depois de ter lido As Brumas de Avalon, posso dizer que gostei de ter ficado a conhecê-las. Entreteve-me, como acho que deveria. Mas não creio que Bradley esteja livre de falhas na sua perspectiva, sobretudo na forma como encara este suposto feminismo (que para mim pouco de feminista tem) e como explora este culto místico ao acompanhá-lo com fortes ataques à tradição cristã (que para mim se aproxima do fanatismo). Aliás, apesar da interessante e original ideia, não me entusiasmou tanto quanto estava à espera. Será que é mesmo preciso ser-se mulher para nos apaixonarmos por Marion?


Nunca, em todas as páginas desta obra, a autora deixou de ser fiel à sua premissa: contar a história de Artur numa perspectiva feminina. Louvo-a imenso por isso. Por vezes teve de pôr de parte acontecimentos importantes como batalhas ou aventuras pessoais do próprio Artur e dos seus cavaleiros, mas nem por isso se desviou do seu intento. As Brumas de Avalon são uma obra única no panorama literário sobretudo por isso. O seu impacto era previsível e inegável, certamente uma abordagem única quando foi lançado.

Gostei muito de voltar a pegar numa obra sobre o Rei Artur, cuja vida habita desde sempre na minha imaginação. Bradley ofereceu-me uma leitura que entreteve e me deu a conhecer novas personagens. Desde sempre conheço Morgaine, Guinevere, Lancelot ou Artur, mas a cada nova versão elas são alteradas, tornando-se novas pessoas, possíveis de serem redescobertas. E esta versão sem dúvida traz novas luzes, sobretudo no que toca aos sentimentos que nutrem entre si (alguma vez alguém explorou Lancelot como homossexual? A exploração sexual das personagens nesta obra está muito interessante).

Não foi a minha interpretação preferida. Não achei que tivesse sido a mais completa sobre a história, de todo (apesar de, mais uma vez refiro, ter sido a mais completa de acordo com o que seria de esperar de uma perspectiva das mulheres). Foi completa dentro daquilo a que se propôs, mas nem sempre me senti totalmente satisfeito. Entreteve, sim, mas não me manteve agarrado a cada página, não me fez vibrar como outros já o fizeram (sobretudo a versão de Bernard Cornwell).
Mas gostei. Sobretudo, gostei de ter finalmente conhecido o místico mundo de Avalon, que nunca foi tão bem explorado quanto aqui.

Quanto ao final, a este último livro, dirijo-me a Marion: mais valia teres ficado quieta. Apesar de algumas surpresas que me agradaram esperava muito melhor na conclusão.
Mais uma vez, são inúmeros os acontecimentos mais do que importantes que não assistimos (sobretudo os que envolvem Mordred e o seu contacto com Artur - só porque Mordred não é mulher) e isso torna-se especialmente frustrante nesta última parte. É certo que foi uma opção inevitável para manter a perspectiva puramente feminina, mas não deixa de ser aborrecido porque o final da lenda de Artur está demasiado ligado à sua relação com Mordred, uma relação muito mal explorada por Marion.

A magia regressa, para meu pesar porque acho a magia de Bradley demasiado fictícia e irreal para se tornar minimamente empolgante. A magia nestes livros, sobretudo a realizada por Morgaine, são como milagres dos Deuses que nunca são explicados, nem são suposto sê-lo para manter a sua aura de misticismo, o que quebra completamente o ritmo da história. Este último livro tem uma falha enorme na sua credibilidade.
E ainda Marion se queixa do cristianismo...

Apenas uma personagem realiza magia que recorre a rituais concretos, uma única vez ao longo destes quatro livros a escritora dedica-se a desenvolver como é que um ritual de magia e adivinhação funciona, o que sem dúvida dá credibilidade ao acto. Mas adivinhem só: esta personagem é completamente ignorante nas artes de Avalon, pelo que a sua magia (que se apresenta mais credível e real do que qualquer outra e não se baseia em fenómenos inexplicáveis feitos do nada por vontade e graça da Deusa), não é considerada verdadeira. É frustrante.

Também mais uma vez, voltamos a encontrar mulheres que apesar de poderosas resignam-se completamente a um destino que acreditam estar escrito pelos Deuses... Este último livro é um enorme retrocesso até ao primeiro livro, para actos de magia milagrosos e mulheres completamente submissas ao culto. Isto é ser feminista? Porque havemos de torcer por mulheres que fazem aquilo que os Deuses dizem para fazer, sem sequer questionarem, onde está a vontade própria? Creio sinceramente que Marion Zimmer Bradley possui umas noções muito erradas do que é ser feminista...

 A resolução pareceu-me relativamente abrupta, sobretudo no que toca ao destino de Artur. Mais uma vez, são os danos de uma perspectiva feminina que fazem com quem assim o seja... Mas fiquei sobretudo desiludido por ter sido um final muito, muito pouco memorável numa obra que fala de misticismo, que fala de Avalon. Esperava algo completamente diferente. Para uma obra tão mágica, tão misteriosa, espera-se que o clímax seja memorável, que faça parte do resto da obra. Pois enganamo-nos, pois é como se a escritora se tivesse esquecido que Avalon existe sequer. Acho que se exigia algo completamente diferente. Fico surpreendido em notar como, com o tempo, a própria autora se afastou de Avalon e perde-se, tornando o que era suposto ser um romance de fantasia histórico para outra coisa... As Brumas de Avalon fica na memória nunca como um livro sobre a lenda do Rei Artur, mas sim sobre o culto pagão da Deusa.

Infelizmente, este último livro não fecha, a meu ver, o livro da melhor forma.

A mensagem final é contudo alegre e esperançosa, pelo que "tem concluído o seu trabalho". Como um todo, a obra vale a pena conhecer, apesar de não me parecer de todo obrigatória. É uma obra única pela abordagem ao misticismo, à espiritualidade e às mulheres na história e na Literatura, mas achei recheada de falsas noções de feminismo (de um pouco de tudo na verdade) e descrições irrealistas de magia.

Será que, de facto, é preciso ser mulher para entrar neste universo? Talvez. Nunca o poderei confirmar por mim próprio, a menos que o faça noutra vida...


sábado, 10 de outubro de 2015

A Senhora de Avalon, de Marion Zimmer Bradley

Depois de As Brumas de Avalon e de A Casa da Floresta, Marion Zimmer Bradley regressa agora com esta nova saga da ilha mágica, contada por três gerações de sacerdotisas que, nos primeiros quinhentos anos da era cristã, protegem o seu reino encantado da avidez do Império Romano. 
A primeira, Caillean, esconde Avalon dos legionários, envolvendo-a sabiamente numa nuvem de brumas intransponíveis; a segunda, Dierna, promove de forma astuta a união de uma das suas noviças com um general romano, transformando-o num potencial imperador bretão que assegurará a preservação do solo sagrado; a terceira, Viviane, guardiã do Cálice Sagrado, partirá da casa dos pais adoptivos na ilha de Mona aos 14 anos para se encontrar com a verdadeira mãe, a senhora de Avalon, e preparar o caminho para o nascimento do rei Artur. 
Rico na descrição de ambientes e na construção de personagens, este romance - onde não faltam guerra, e traições, amores e ódios, profecias e maldições - tem a mesma grandiosidade mítica e épica que caracteriza as outras obras da autora, evocando com igual dinamismo, os mitos, a magia e a história da Inglaterra lendária.



Cá estamos novamente, teimosamente, a explorar Avalon e uma saga que tem tido muita dificuldade em encantar-me. As Brumas de Avalon foi interessante, apesar de extremamente sobrevalorizado na minha opinião; A Casa da Floresta foi por sua vez uma leitura emocionante e Os Corvos de Avalon apesar de ser uma obra literária fraquita deu para ler com alguma satisfação.
Quanto a este A Senhora de Avalon... Bem, é caso para me voltar a perguntar "Porque é que insisto em ler isto?".

A obra divide-se em três contos: um que precede imediatamente A Casa da Floresta, outro que antecede imediatamente As Brumas de Avalon, e ainda um temporalmente situado entre os outros dois. Cailean, Viviane e Teleri, sacerdotisas de Avalon e fundamentais na construção do destino que culminará no nascimento do Rei Artur.
Acredito que este livro seja uma pequena maravilha para os fãs de Marion Zimmer Bradley. Apesar de para mim me parecer inacreditável que um fã possa apreciar uma obra que destrói grande parte do misticismo característico de Avalon. Mas, é um facto, quando somos fãs de uma série adoramos esmiuçar todos os pormenores desse universo fictício, e é isso que este livro faz. Aliás, é para mim a única coisa que faz: encher a barriga dos fãs.

A maior parte das personagens já são nossas conhecidas dos outros livros. O que lemos aqui é o desenvolvimento das suas histórias, aliás a exploração, aliás a sobrexploração. Tenho mesmo muita pena, pois livros como A Casa da Floresta têm um final completo mas que nos deixa a reflectir no futuro das personagens, dando asas à nossa imginação, enquanto A Senhora de Avalon nos mostra esse futuro e destrói a nossa própria magia. Algumas vezes, compensa deixar as coisas entregues à imaginação.

As três histórias assentam na ideia de reencarnação e de que, através dos tempos, os espíritos ligados entre si se reencontram na sua vida terrena. Ou seja, cada conto é apenas uma repetição do anterior. As variações, apesar de existirem, pouco se reflectem na história geral. A melhor história, na minha opinião, foi precisamente a que apresentava personagens nunca antes mencionadas e com um triângulo amoroso muito interessante onde a vontade humana (coisa que Marion Zimmer Bradley irritantemente insiste em desprezar para as suas personagens, coitadas) entrava em conflito com o destino dos seus próprios espíritos. Os restantes contos foram um belo exercício de ludíbrio dos fãs.

É um livro muito repetitivo e dispensável. É uma pena, porque algumas das personagens destes contos são das mais intrigantes (e das minhas preferidas). Mas lá está, desmistifica-as, dispersa desnecessariamente a sua história, destrói o mito e personalidade agradável que se construiu à sua volta. Mais do que triste por não ter gostado do livro, deixou-me desanimado por se ter revelado o que é.

Terá sido a necessidade de continuar a série de Avalon assim tão grande? Continuar histórias que não precisavam, nem pediam, continuação?
Pergunto-me quanto deste livro aconteceu por vontade de Marion e não por vontade dos fãs e das próprias editoras (infelizmente é a realidade).

Uma péssima forma de chegar quase ao fim da minha jornada pelo mundo de Avalon. O que me safa as expectativas é saber que o próximo livro, A Sacerdotisa de Avalon, passa-se precisamente na época do conto que eu mais gostei, com personagens completamente diferentes das que já conheço.



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Os Corvos de Avalon, de Diana L. Paxson

No centro de Os Corvos de Avalon está a conquista romana da Bretanha e a rebelião conduzida pela Rainha Boudica, a guerreira celta, e por Lhiannon, a sua jovem mentora na ilha dos Druidas.
Quando o exército do Império conquistou o reino Iceno, no século I D.C., Lihannon enfrentou-o enquanto Boudica acabou por se casar com Prasutagus, o Rei Supremo dos Icenos que governou como rei cliente de Roma. Boudica e Prasutagus viveram felizes até à morte deste, um acontecimento que mudou para sempre a vida daquela que se viria a tornar a Rainha Guerreira. Com a morte a morte do marido, as terras Icenas foram definitivamente anexada ao Império, tendo Boudica sido brutalizada e as filhas violadas.
Cheia de raiva e espírito de vingança, Boudica apela às tribos britãs e conduz o seu povo na resistência contra os exércitos ocupantes de Roma. Apesar do insucesso da rebelião, Lhiannon sobrevive e torna-se guardiã das tradições druidas na nova Bretanha Romana, como alta sacerdotisa da Casa da Floresta.
Repleto de notáveis personagens femininas, que sempre habitaram a mítica ilha de Avalon, esta tão aguardada obra, que antecede A Casa da Floresta, é um portentoso épico que expande a saga lendária que encantou milhões de leitores por todo o mundo.



Depois de uma leitura tão cativante quanto A Casa da Floresta, decidi ler a sua prequela. As expectativas eram altas, mas controladas: este livro não foi escrito por Marion Zimmer Bradley, mas sim por Diana L. Paxson (apesar de se basear no imaginário de Bradley). Sabia que devia esperar um estilo mais genérico, não tão idiossincrásico quanto o de Bradley. Contudo, Paxson provou ser ajudar bastante a tornar a escrita de Bradley menos onírica e a melhorar a reconstrução histórica, aumentando o entretenimento da leitura. Estava por isso bastante curioso (e, depois de ter expressado tantas vezes o meu desagrado por Marion Zimmer Bradley, é óbvio que estava à espera que Diana me agradasse um pouco mais).


De facto, "entretenimento" é a palavra que melhor se adequa para descrever o livro. Bastante fácil de ler, com uma história simples e que apesar da extensão do livro se desenrola com bastante tranquilidade, sem desprezar alguma contextualização histórica. O livro histórico perfeito para agradar ao leitor mais comum.

Apesar disso, é um livro de muito pouca imaginação. A sua simplicidade revela-se na forma como pouco explora o enredo, sem criar grandes sobressaltos ou complexos, sem muita criatividade nos seus caminhos. As personagens, apesar de interessantes de seguir (sobretudo Boudica, porque há qualquer coisa de fascinante em mulheres na literatura com um lado guerreiro, rebelde), não são exemplos de personalidades motivadas. É um livro extenso mas a história acaba por ser bastante simples, nunca passando muito de um toma-lá-dá-cá entre os Romanos e Bretões (mais um toma-lá-toma-lá, já que aos Bretões coitados calhou uns Romanos bastante fortes).

Pior do que uma história sem desenvolvimentos que valham a pena apontar, sem emoções fortes, limita-se à reconstituição histórica mais básica. Falta pormenor, sobretudo exploração tanto a nível de enredo como a nível de personagens e de conhecimento. Faltou criatividade a todos os níveis: na História, na estória e nas pessoas que fazem parte delas

Paxson e Bradley juntas são o melhor dos dois mundos. Foi isso que A Casa da Floresta me mostrou, se de facto Paxson teve influência no livro. Sozinhas caem no seu pior.

Os Corvos de Avalon compromete-se a contar a história de Lhiannon e Ardanos, já sugerida em A Casa da Floresta, e de Boudica, que não só marcou esta época na História da Bretanha como foi bastantes vezes referenciada em As Brumas de Avalon. Limita-se assim a colmatar a inexistência de uma história tantas vezes referenciada ao longo dos livros e que ficou por contar, e fá-lo da forma mais simples possível. Sem pretensões, é certo, o que é agradável, mas neste caso talvez o pretensiosismo tivesse feito a autora dar-se ao trabalho de criar uma obra digna desse nome. Porque é isso mesmo que eu senti: uma leitura que não dá muito trabalho ler, um livro que não deu trabalho algum a escrever.
Mas, apesar de tudo, é certo que foi o livro mais fácil de ler de toda a saga de Avalon e por isso mesmo entretém (porque nem sempre um livro precisa de ser um clássico literário escrito por um génio para se apreciar).

Vale a pena ler por aqueles que são fãs da saga precisamente por falar de personagens conhecidas; para quem não o é... Gostaria de dizer que é a obra certa para conhecer mais sobre a História do Mundo e sobre a lendária Boudica, mas não é. Espero que hajam por aí romances mais dignos que tal tarefa. Mas se procuram uma leitura muito simples, que entretém, não dá muitas dores de cabeça e que de forma muito (demasiado) superficial aborda a História do Mundo, experimentem suponho.

Porque, infelizmente, nem posso dizer que tenha ficado satisfeito por conhecer a vida de Boudica. A maior parte do livro concentra-se na sua vida antes de se tornar uma guerreira (como aprendiza em Avalon, e esposa), e essa vida é muito pouco entusiasmante. A exaltação das suas batalhas, a perseguição aos Romanos, ocupa umas meras páginas considerando a extensão do livro. Se querem saber coisas sobre esta Rainha Guerreira, aprenderão mais lendo a sua página da Wikipedia.
Mesmo Lhiannon, outra protagonista, sacerdotisa de Avalon, apesar da vida preenchida pela guerra, pouco passa dessa correria de batalha em batalha. Mais uma vez, um livro sem passos criativos, sem sobressaltos no enredo... Sem emoções fortes.

Entretém bastante mais como romance histórico do que Marion alguma vez conseguiu. Isso, para mim, é certo, apesar de a exploração histórica ser bastante fraca (mas também não acho que a de Marion tenha sido melhor). A escrita é porém bastante mais genérica, pelo que não fiquei sequer com curiosidade de conhecer outras obras de Diana.
A escrita de Marion é mística, quase tão difusa como as suas brumas, e mesmo que eu não goste de ler isso não deixo de apreciar a sua unicidade e diferença. É o que caracteriza a fantasia de Marion, e isso é muito difícil de reproduzir. Pelo menos não o foi aqui.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A Casa da Floresta, de Marion Zimmer Bradley


MARION ZIMMER BRADLEY, que nasceu em Albany, Estados Unidos da América, em Junho de 1930, começou a escrever, adolescente, e até agora escreveu quase 50 livros, um terço dos quais constitui as Darkover novels.
Até à publicação, em 1983, de "As Brumas de Avalon", um novela feita a partir de um ponto de vista das mulheres na lenda do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda,a sua carreira literária abarcou as histórias que vendeu para revistas de "western", de ficção científica e de mistério dos anos cinquenta, para sustentar o marido e os filhos, os romances góticos que pagaram a sua estadia universitária nos anos sessenta, e os romances de ficção científica, tais como "Seven From The Stars", "Hunters of The Red Moon" e "The Endless Voyage", que continuam a vender-se hoje em dia, anos depois da sua publicação, de um modo muito estável. Com "As Brumas de Avalon" e a sua permanência de três meses na lista de best-sellers do "New York Times", Marion Zimmer Bradley marcou um lugar para si nos corações dos leitores pelo mundo inteiro.



Marion ganhou enorme notoriedade com a sua interpretação da lenda do Rei Artur, As Brumas de Avalon, considerado um clássico da Literatura. Mas desiludam-se os que pensam que a sua obra sobre Avalon fica por aí. Aliás, como já disse quando li As Brumas de Avalon, o livro é mais sobre um culto aos deuses e sobre o mundo de Avalon do que a história medieval de Artur. Uma bíblia religiosa, não um conto de cavaleiros.

Infelizmente, a obra de Bradley não me cativou e as expectativas eram bastante baixas para esta leitura. Felizmente, este revelou-se o meu livro preferido de Marion Zimmer Bradley.
Vou dizer algo que ainda não ouvi ou li alguém, em lado algum, afirmar: gostei muito mais de A Casa da Floresta do que de As Brumas de Avalon.
Leitores à volta do mundo (fãs e não só) olhar-me-ão com desprezo depois de tal afirmação. As Brumas de Avalon é uma obra quase intocável no universo literário, aplaudida em todos os sectores, que quase define um género. Mas para mim, que não achei os livros nada de especial (singular, sim, mas "falhoso") gostar mais de A Casa da Floresta foi bastante fácil.

O enredo passa-se alguns séculos antes da chegada do Rei Artur, antes sequer de Avalon ser importante. Estamos em plena presença romana na Britânia e apenas um pequeno grupo de bretões nativo resiste ao seu domínio. Eilan, uma sacerdotisa nativa, apaixona-se pelo general romano Gaius, ambos quebrando as regras que são impostas pelas suas comunidades e ensinando que o amor é uma linguagem universal.

Em A Casa da Floresta, Bradley atinge o equilíbrio perfeito entre um romance histórico, uma história de amor e uma ode aos cultos espirituais celtas. 
Nada de personagens sem rumo e sem qualquer vontade própria; nada de descrições obscuras e imperceptíveis, nem de magia sem qualquer sentido. Não chegamos ao fim com a impressão de termos lido os devaneios de uma seguidora de um qualquer culto aos deuses pagãos e que despreza a Igreja, mas sim a história dos Homens que lutam por evitar o destino que é, porque assim os deuses o querem, inevitável.
Acredito que Diana L. Paxson, cuja participação no livro não é creditada, teve bastante influência neste casamento perfeito entre História e Fantasia. Sem dúvida, ajudou Marion Zimmer Bradley a empenhar-se mais na reconstrução histórica e menos nas suas fantasias nebulosas.

Fui completamente cativado. É uma história completamente trágica e emocional, com personagens riquíssimas em motivações e complexos que ditam as suas acções, o que as torna bastante interessantes. Sim, é de facto uma história bastante triste. Enquanto folheio estas páginas, lembrando-me daquilo que me fizeram sentir, é tristeza e condenação que guardo delas. Mas um livro não precisa de ser alegre, sequer esperançoso (apesar de tudo este não deixa de o ser) para ser bom.
Apesar de chegar à conclusão que dificilmente simpatizo com qualquer personagem que Bradley crie (porque será que as suas personagens conseguem ser tão tacanhas ou com faltas de espírito tão grandes de vez em quando?), ao contrário de As Brumas de Avalon elas têm vontade própria, lutam pela sua vida ou por aquilo que acreditam e não se limitam a seguir cegamente a vontade dos Deuses. Isso agrada-me imenso.

Um verdadeiro romance histórico fantástico com um enredo que participa activamente nos eventos da História da Bretanha. Sim, é bastante triste, não só na história como nas palavras. Mas é demasiado emotivo para desagradar.
Se depois de As Brumas de Avalon decidi ler os restantes livros dedicados a Avalon mais por obrigação do que por prazer, desta vez é com genuína vontade que quero ler os restantes livros (apesar de, infelizmente, a editora que os publicava em Portugal ter falido e pelo menos um dos livros nunca ter sido traduzido).


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A Queda da Altântida, de Marion Zimmer Bradley

A história de duas irmãs, Deoria e Domaris, filhas de Sumo Sacerdote Talkannon, dos seus amores, dos seus ódios, dos seus prazeres e sofrimentos e da forma como, tendo escolhido caminhos diferentes, por vezes opostos, vivem os seus dias e desempenham um papel fulcral na batalha que, apesar de invisível, se trava dia e noite pelo futuro do Mundo. Mas mais importante que qualquer destino ou karma, o que está em jogo é o futuro do próprio Mundo, pois da batalha mortal que se trava entre as Trevas e a Luz e do seu desenlace poderá resultar a queda da própria Atlântida.




Depois de descobrir As Brumas de Avalon e de finalmente ficar a conhecer quem é Marion Zimmer Bradley como escritora, decidi ler os restantes livros associados à sua mitologia de Avalon. Não por verdadeira paixão ou entusiasmo, como podem ter lido não fiquei particular fã das Brumas. Faço-o apenas por uma pequena mania de leitor que não gosta de deixar livros da mesma série por ler (mesmo quando, neste caso, As Brumas de Avalon é uma obra completamente independente e a leitura das suas prequelas são completamente dispensáveis) e por uma pequenina curiosidade em conhecer as diferentes encarnações das personagens, cujos actos supostamente construíram o karma que culmina com a vida do Rei Artur, de Morgaine e de Viviane (apesar de ter ficado completamente satisfeito em apenas ter a noção de que existiram essas encarnações, e em todas elas as almas das personagens se encontraram).

A primeira vez que li A Queda da Atlântida foi uma péssima leitura e quase jurei não voltar a tocar no livro.
Esta minha segunda experiência foi contudo bastante melhor. A história do livro continua a ser aborrecida e monótona, a mesma sensação de tempo perdido estava lá enquanto o lia. No entanto, foi também em tudo diferente: desta vez, não li a história de Deoris e Domaris, mas sim a história de Morgaine e Viviane antes de serem elas mesmas, dos seus pecados cuja expiação perdurará até àquela Inglaterra medieval. Por isso mesmo a minha experiência de leitura foi bastante mais agradável. Ganhei uma nova perspectiva.

Os defeitos do livro continuam lá: na verdade a história fala dos acontecimentos que precedem a queda da Atlântida alguns anos antes, pelo que o título é bastante enganador; a história é incrivelmente lenta e repetitiva; as personagens não são particularmente entusiasmantes. Todo o livro (de referir que é bastante maior do que aparenta) fala apenas da vida dos Sacerdotes de um certo Templo situado nos Reinos do Mar, e de como alguns desses Sacerdotes tentam aceder a Magia Negra. Nada de mistérios ou desenvolvimentos mais interessantes. Apesar de tudo, em algumas ocasiões pode tornar-se mais entusiasmante, mas mais uma vez não acho que dependa de todo do livro em si, mas sim da nossa capacidade de nos abstrairmos completamente do que estamos a ler (porque, a sério, se não for isso não vejo o interesse de conhecer nenhuma destas criaturas).

Marion Zimmer Bradley cria uma mitologia muito rica, uma religião cheia de pormenores, mas que na verdade nunca se desenvolve na sua plenitude. O livro enche-se de rituais que são mais confusos do que gostaria. Comecei finalmente a perceber que de facto Bradley recusa-se, ou não se aventura, a explorar o seu misticismo o suficiente para o tornar verdadeiramente interessante. Oferece uma panóplia de símbolos que nunca são explicados e descreve uma série de rituais de tal forma difusos que dispensam explicações. Talvez faça sentido para o género que ela tenta escrever (quase religioso) e sem dúvida caracteriza o seu estilo. Todos os simbolismos que Bradley refere permanecem um completo Mistério para o leitor e não sei se no seu caso me agrada muito.


Apesar de não ser, de todo, um bom livro vindo da autora, a constante ideia de que as personagens principais são as primeiras encarnações das personagens das Brumas fez-me de facto apreciar o seu destino e compreendê-lo, muito mais do que na primeira leitura. Atrevo-me a dizer, consegui-me emocionar.



terça-feira, 14 de julho de 2015

O Rei Veado, de Marion Zimmer Bradley

O presente volume constitui a terceira parte do monumental romance As Brumas de Avalon. Significativo da sua qualidade e simultânea popularidade, é o facto de alguns paises já se terem atingido a vigésima edição desta obra tão favoravelmente acolhida pela crítica mundial.


«Lemos o primeiro livro,
A Senhora da Magia. Esperamos pelos restantes para preencher a nossa avidez de mistério e de saudade daquela sabedoria inicial, que fomos perdendo na assimilação de culturas, quando éramos um com a terra.»
João Mattos e Silva,
Letras & Letras, Mai. 88

«Uma perspectiva alucinante e vertiginosa, de uma época onde tudo era possível através dos poderes das mulheres.»Mulheres, Fev. 88


«O ponto de vista das mulheres, sobre este ciclo de lendas, é, de facto, original e cativante. A prová-lo está o enorme sucesso editorial que a obra de Bradley suscita em toda a parte.»
A Capital, 26 Nov. 87

«Uma fascinante visão do mágico, do místico, do fantástico de eras perdidas do mito.»
D. S. Bruno,
Semanário, 22 Dez. 87 

«... um livro a reter como um retrato relativamente fiel de uma tradição, onde o fio da lenda (haverá coisas tão agradavelmente reais como as lendas arturianas?) é contado a partir de outra perspectiva, de outro olhar sobre o destino da História e do sentido de Avalon.»
Francisco José Veigas, Expresso, 5 Mar. 88 


Terceiro volume de As Brumas de Avalon... Apesar de serem bastante rápidos de ler (ainda não demorei mais de três dias a ler cada volume), não deixam de ser muitas páginas, não deixa de ser uma obra que abrange anos e anos. Personagens vão e vêm, nascem e morrem, e vamos ficando cada vez mais próximos das mulheres que protagonizam a lenda de Artur...

Infelizmente, O Rei Veado marca o início da tragédia. Daqui para a frente não há volta a dar e saber o que virá a acontecer apenas aumenta a dor. O destino é impiedoso.

Bradley continua a oferecer uma perspectiva empolgante de uma história épica. Somos presenteados com algumas surpresas, umas desagradáveis outras não tanto, e o destino de Avalon torna-se cada vez mais incerto. Será que o culto da Deusa, e a própria Deusa, sobreviverá? O que será de um mundo onde as brumas de Avalon se fecharão para sempre?

É um livro muito mais trágico do que os anteriores (a história está a chegar ao seu fim, já se adivinha os tempos difíceis), mas isso só torna a leitura ainda mais viciante.

Infelizmente, nem tudo são rosas, ou melhor dizendo não foi ainda assim uma leitura perfeita... Bradley desenvolve ainda mais o seu descontentamento pela religião cristã, o que nesta altura do campeonato já se tornou ódio. Já nos livros anteriores tinha notado esta forte vertente do livro, mas as bandeiras pelas quais Bradley luta contra a religião cristã eram sempre as mesmas e confiei que a autora fosse mais argumentativa com o passar das páginas. Não aconteceu. Uma discussão entre religiões é sempre interessante, mas os argumentos de Bradley são sempre os mesmos... Tal como já tinha reparado no volume anterior, a discussão teológica torna-se demasiado repetitiva e, mesmo que Bradley possa ter alguma razão, acaba por fartar o leitor.

Para além do ódio ao cristianismo, também me irritou bastante o outro lado da moeda: a defesa veemente das suas visões espirituais e da prática do culto da Deusa. Talvez esteja a deixar-me levar pelos meus "preconceitos" cristãos, mas qual a necessidade de Bradley em defender tanto uma relação incestuosa? Eu percebo que incesto não seja um pecado, sobretudo quando é inconsciante, mas Bradley glorifica-o. Haverá necessidade de glorificar relações incestuosas por uma alegada ligação espiritual? Não creio. Aliás, tudo o que envolva discussão espiritual e religiosa e teológica é incrivelmente conflituoso para mim ao ler este livro... Porque Bradley parece quase fanática nas suas ideias. Infelizmente, saber que foi acusada de abusar sexualmente a filha menor e de defender o marido pedófilo não me ajuda nada a ler com bons olhos as suas palavras.

Avanço para o próximo volume com entusiasmo. Depois de um início bastante morno, finalmente sinto-me agarrado depois do desenvolvimento saga. Como irá Bradley escolher o seu final? Que mais reviravoltas nos aguardam? Mal posso esperar pela conclusão.




quinta-feira, 25 de junho de 2015

Rainha Suprema, de Marion Zimmer Bradley

O presente volume constitui a segunda parte do monumental romance As Brumas de Avalon. Significativo da sua qualidade e simultânea popularidade, é o facto de alguns paises já se terem atingido a vigésima edição desta obra tão favoravelmente acolhida pela crítica mundial.


«Lemos o primeiro livro,
A Senhora da Magia. Esperamos pelos restantes para preencher a nossa avidez de mistério e de saudade daquela sabedoria inicial, que fomos perdendo na assimilação de culturas, quando éramos um com a terra.»
João Mattos e Silva,
Letras & Letras, Mai. 88

«Uma perspectiva alucinante e vertiginosa, de uma época onde tudo era possível através dos poderes das mulheres.»Mulheres, Fev. 88


«O ponto de vista das mulheres, sobre este ciclo de lendas, é, de facto, original e cativante. A prová-lo está o enorme sucesso editorial que a obra de Bradley suscita em toda a parte.»
A Capital, 26 Nov. 87

«Uma fascinante visão do mágico, do místico, do fantástico de eras perdidas do mito.»
D. S. Bruno,
Semanário, 22 Dez. 87 

«... um livro a reter como um retrato relativamente fiel de uma tradição, onde o fio da lenda (haverá coisas tão agradavelmente reais como as lendas arturianas?) é contado a partir de outra perspectiva, de outro olhar sobre o destino da História e do sentido de Avalon.»
Francisco José Veigas, Expresso, 5 Mar. 88 



O primeiro volume foi uma introdução muito amena a esta versão mágica e feminista da lenda do Rei Artur. A magia esotérica, muito indefinida, e as mulheres poderosas mas de pouca vontade própria não me conseguiram entusiasmar.

Este segundo volume, no entanto, afasta-se completamente do misticismo tão indistinto quanto as brumas de Avalon e aproxima-nos do mundo real. Efectivamente, neste segundo volume a personagem principal afasta-se de Avalon e vai para o meio da corte real - onde a magia é completamente abominada. É por isso uma abordagem muito mais empolgante, que finalmente nos faz torcer por personagens que querem apenas viver e amar e que lutarão pela sua felicidade.

Nada de esoterismos, nada de sacerdotisas: apenas mulheres, Morgaine e Gwenhwyfar, lutando por aquilo em que acreditam, não se deixando vergar pela vontade dos outros. Isto, sim, é uma perspectiva feminista!
Apesar da magia que caracteriza e distingue esta série não estar tão presente (reconheço que é o que torna a obra tão idiossincrásica), a vontade humana é mais forte do que nunca e nada é mais cativante. Cativante, contudo, de uma forma algo mórbida: nós que conhecemos a lenda, sabemos como tudo acaba em tragédia, mas assistimos com emoção a estas personagens que procuram tecer o destino à sua maneira. Talvez seja verdade que a vontade dos Deuses seja inultrapassável.
É este segundo volume que faz de mim um seguidor de Avalon.

Gwenhwyfar é a Rainha Suprema, mulher de Artur, e o seu fanatismo religioso fá-la uma personagem praticamente detestável; enquanto Morgaine vai perdendo a sua influência junto do Rei, e com ela o poder de Avalon na Terra, Gwenhwyfar usa todos os trunfos para transformar a Bretanha em terra cristã, abolindo de vista as manifestações celtas.

A presença dos homens mal se nota, o que para mim acaba por tornar esta saga não tão completa quando poderia ser. Reuniões de guerra e batalhas são completamente ausentes, o que faz sentido visto que nenhuma destas mulheres se pôs a combater ao lado de Artur, mas acabam por ser desprezados momentos muito importantes na história. Momentos que são desperdiçados com uma referência rápida. Por vezes nem sequer temos a oportunidade de acompanhar as mulheres no nervosismo que acompanha a espera, já que oportunamente desmaiam ou entram em transe. Por favor, eu até aceitava uma magia maluca qualquer que fizesse com que o espírito delas fosse transportado para o meio das batalhas! Mas nem isso nem nada parecido.
Contudo, sou justo: esta é uma perspectiva completamente feminina da lenda de Artur e Bradley nunca se esquece disso. É um desafio completado com louvor. A ausência dos momentos masculinos é um dano colateral, mas necessário para tornar esta obra tão única. Se quero ler mais, que vá procurar outros livros.

Com o fanatismo religoso de Gwenhwyfar, vem a guerra entre cristianismo e culto da Deusa. Esta discussão teológica poderia ser bastante interessante, mas infelizmente ao longo do livro os argumentos são sempre os mesmos e o que podia ser uma argumentação bastante construtiva acaba por ser apenas repetitiva, sempre a bater nas mesmas teclas... Talvez nos próximos livros isso melhore.

Finalmente, as brumas encantaram-me. Daqui para a frente espero que esse encanto apenas aumente com o adensar da história...


terça-feira, 23 de junho de 2015

A Senhora da Magia, de Marion Zimmer Bradley

O presente volume constitui o inicio da publicação em Portugal do monumental romance As Brumas de Avalon. Significativo da sua qualidade e simultânea popularidade, é o facto de alguns paises já se terem atingido a vigésima edição desta obra tão favoravelmente acolhida pela crítica mundial.

«Uma monumental reinvenção das lendas Arturianas... lê-lo é uma experiência profundamente tocante e, por vezes, estranha... Uma obra marcante.»
The New York Times Book Review 

«As Brumas de Avalon, com a sua magistral tecitura e uma escrita de grande beleza, lança nova luz sobre velhos personagens, nomeadamente a fada Morgana, Merlim, Lancelot e Guinevere. Romance épico por onde perpassam violências, sensualidades, dolorosas lealdades e encantamentos assombrosos.»
Publishers Weekly 

«A mais maravilhosa evocação da saga do Rei Artur que já li. Absolutamente extraordinário.»
Isaac Asimov

«Gostei tanto do livro que o comprei para um amigo e falei dele a toda a gente. Porque será que até agora  ninguém se lembrara de contar a história do Rei Artur  da perspectiva  das mulheres!"
Jean M. Auel 

«A mais original das interpretações da Matéria da Bretanha na via da religião Celta e da Grande Mãe... uma  notável proeza de imaginação.»
Mary Renault



As Brumas de Avalon é talvez o mais popular clássico literário sobre o ciclo Arturiano (só o filme da Disney A Espada Era a Lei deve ultrapassar essa popularidade, mas parece-me que pouca gente tem a noção de que é na verdade uma adaptação cinematográfica do livro O Rei Que Foi e Um Dia Será).
Também a mais mística de todas as abordagens à lenda do Rei Artur, o seu impacto ultrapassa o da história: é a inspiração de inúmeros livros actuais que lidam com magia, mistério, tradição celta e o poder das mulheres... Creio que não há um único livro que não lide com misticismo e paganismo que não seja comparado a esta obra!

Todos os eventos da lendária história do Rei Artur passaram-se numa época hoje tão obscura que não há praticamente dados históricos concretos... O que dá lugar a inúmeras versões literárias, que ao longo dos anos tenho vindo a descobrir com muito gosto (esta é sem dúvida das minhas histórias preferidas). E quem sabe se esta não é a versão real da vida de Artur, Lancelet, Morgaine e Gwenhwyfar?


A obra divide-se em quatro volumes e comentarei cada um deles ao longo da leitura. Apesar da já inexistente Difel defender que podem ser lidos individualmente, sem qualquer quebra de ritmo, aconselho desde já a não o fazerem. Existe continuidade entre os livros e lê-los independentemente não garante o impacto que se deseja à medida que vamos conhecendo e acompanhando as personagens (algumas como amigas, outras como inimigas).
Também aconselho vivamente a, se decidirem ler este primeiro livro, não deixarem de avançar imediatamente para o segundo. Pelo menos para mim este primeiro volume não foi suficiente para me agarrar...


A premissa do livro é bastante simples: foram as mulheres que influenciaram o destino da Bretanha, desde as sacerdotisas de Avalon defendendo a presença da sua Deusa à rainha cristã defendendo o poder de Cristo.
Infelizmente, este primeiro livro pouco me entusiasmou em relação a estas tão aclamadas e "poderosas" mulheres. Marion Zimmer Bradley introduz-nos a mulheres que, apesar de influentes, pouca vontade própria têm e limitam-se a seguir a vontade dos Deuses, sem que tenham uma palavra própria a dizer. As sacerdotisas de Avalon são mulheres que se resignam ao destino que os Deuses escrevem e a vontade humana é praticamente nula. Sinceramente, não consigo achar tais mulheres inspiradoras. Para um livro que tem fama de ser feminista, as suas mulheres são bastante passivas. Digo eu.

O livro lê-se numa assentada (aliás a primeira vez que nele peguei li-o numa noite apenas). Mas tal deve-se sobretudo à escrita muito fluida e muito simples, e não à emoção da história (o que, sejamos justos, é compreensível quando esta é apenas a primeira parte do livro, uma introdução).

Mas o mais aborrecido do livro acabou por ser as descrições da magia: surreais, difusas, esotéricas. A magia de As Brumas de Avalon é uma magia entre a Terra e um outro mundo paralelo, e a forma como Marion Zimmer Bradley a descreve é incrivelmente esotérica, desnecessariamente irreal, o que não apreciei de todo. A Magia é descrita de tal forma difusa, no óbvio objectivo de mantê-la nessa forma oculta e inatingível (tão difusa quanto as brumas de Avalon), que se torna enfadonha. É certo que tem a sua razão de ser... Mas isso não a torna menos aborrecida. A magia de Avalon é demasiado indefinida para mim, como se me tomasse como um ignorante que acredita em milagres todos os dias. Ler as passagens que que descrevem os actos mágicos é como ler palavras soltas que aparecem vindas do nada  e que cavalgam no vento sem grande sentido.
As únicas partes que acabei por apreciar mais foram precisamente aquelas em que as personagens se revelaram um pouco mais humanas e terrenas, onde se discutiam as suas motivações mais próximas do que eu espero serem os conflitos de um ser, e isso foi relativamente raro.

É, no fim de contas, uma introdução. Não a mais empolgante, mas não julguemos um livro apenas pelas primeiras páginas. Mais uma vez, se este primeiro livro não for do vosso agrado (como não foi do meu) não hesitem em avançar para o segundo livro, que garanto será bastante mais empolgante.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A Filha de Mistral de Judith Krantz

A Filha de Mistral é um daqueles livros grandes, daqueles que saltam bem à vista, que desde pequenino vejo nas estantes da minha mãe e que sempre ansiei por pegar.
Hoje foi o dia.

Valeu a pena os anos de curiosidade? Valeu a pena o tempo perdido num livro de tantas palavras?
Como se costuma dizer: meh.

É um livro bastante mais extenso do que parece e que conta a história de uma família ao longo de quase um século. Mas a escrita imaculada de Judith Krantz não deixa lugar a grandes emoções fortes e a vida fácil das suas personagens não cativa de todo... E não, eu não preciso de ser mulher para gostar do livro.


A história desde logo chamou-me a atenção: a épica saga das três mulheres Lunel, avó mãe e filha, Maggy Teddy e Lunel, e do homem a quem cada uma delas está tão ligada, Mistral, o maior pintor francês de sempre, uma história que percorre o séc. XX desde os gloriosos anos 20 em Paris até aos anos 70 de Nova Iorque. Eu gosto de livros assim, que se estendem ao longo de quase um século de História, que seguem as suas personagens uma vida inteira, porque o que mais me agrada na leitura é conhecer novas personagens e apaixonar-me por elas (ou mesmo odiá-las, o que importa é emocionar-me!).

A Filha de Mistral é, por um lado, isso. Começamos por conhecer Maggy, uma jovem ingénua que se torna a maior modelo de artistas de Paris nos anos 20, e que vai viver uma paixão arrebatadora mas efémera com Julien Mistral. Muito mais tarde, depois do destino a levar até Nova Iorque, a sua filha Teddy torna-se a maior modelo fotográfica dos anos 50 e também ela apaixonar-se-á por Julien Mistral. E ainda mais tarde Fauve, filha de Teddy, irá lidar com Mistral e enfrentar os segredos que o seu passado e das Lunel esconde.

Uma história longa e de destinos, como se percebe.
Mas não se deixe iludir: o livro é desapontadoramente vulgar.

Para começar, não há nada de verdadeiramente emocionante nesta história tão longa que mereça a construção de um suspense ou de expectativa. É certo que a vida não corre sempre bem: há pessoas que morrem, deixando os sobreviventes desamparados; muitas vezes as decisões não são as correctas, e mais tarde terão de lidar com as suas consequências. Mas todos estes acontecimentos, que são o verdadeiro enredo do livro, não nos agarram, não nos deixam o coração apertado de emoção, não nos fazem torcer por quem quer que seja. Apenas... Acontecem. Dir-me-ão "e não é mesmo assim a vida?", e eu concordarei (lembro-me agora do belo filme de Richard Linklater, Boyhood, que reflecte um pouco a passagem do tempo sem o clímax das fantasias artísticas). Mas Judith Krantz claramente não pretende fazer de A Filha de Mistral uma reflexão sobre a passividade da vida contra os romantismos construídos pelas novelas e por Hollywood. Pretende, antes, construir um trama épico no feminino, mas falha em cativar um leitor mais maduro. Parece-me que uma pessoa com menos cultura literária ficará bastante mais agradado com esta oferta.

Para mim, uma das grandes razões que tornou esta leitura tão vulgar e pouco cativante foi a escrita. Na verdade, há que confessar que Judith Krantz escreve muitíssimo bem. Leram bem, muitíssimo! Acho que raras vezes encontrei uma escritora tão perfeitamente irrepreensível: frases perfeitamente delineadas, palavras devidamente pensadas, tudo maravilhosamente correcto. Resumindo: perfeitamente aborrecido. A escrita de Krantz é tão correcta que não há espaço para uma certa liberdade na escrita, a liberdade que na minha opinião é a voz do escritor. Tão correcta que acaba por não dar espaço a emoções fortes. Não há atrevimento.


Todo o livro é uma ode às modelos, uma apreciação da beleza feminina retratada nas revistas de moda. É óbvio que a autora tem uma paixão enorme pelo mundo da publicação da moda, e certamente fala com experiência e profissionalismo. Infelizmente, os seus devaneios sobre a perfeição das modelos da capa da Vogue pouco me entusiasmaram, e o facto de todas as protagonistas serem fisicamente imaculadas (ao ponto de uma senhora de sessenta anos aparentar os dezassete) menos me convenceu.
As mulheres Lunel são as mais bonitas que alguma vez pisaram a terra e isso parece garantir que raramente encontrem dificuldades na vida. O seu percurso de vida parece basear-se apenas em arranjar trabalho aparentemente bem pago pela sua beleza, mais uma vez dando pouco espaço a uma história mais elaborada pela qual o leitor possa ser cativado.


Apesar de tudo, chegados ao fim do livro, é impossível não sentir uma certa nostalgia na despedida. Depois de percorrermos a sua vida inteira, percebemos que inconscientemente acabámos por nos agarrar a estas mulheres. É um sentimento inevitável quando se trata de uma história de tantos anos, que nos acompanha por tantos dias. Não obstante, nunca em todo o resto do livro sentimos verdadeira necessidade de as acompanhar.

No fim de contas... Não é mais do que um livro romântico, como aqueles romances femininos vendidos nas papelarias, mascarado por uma história mais extensa e que não entretém como seria de prever (foi aliás mais demoroso de ler do que esperava). Não que dê o meu tempo por perdido, mas sem dúvida não teria pegado se soubesse melhor.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O Raio Verde, de Júlio Verne

Curiosamente, em tantos anos a escrever para este Cantinho, nunca publiquei uma crítica a um livro de Júlio Verne. Curioso porque ele é, na verdade, um dos meus escritores preferidos!

Na verdade, não é anormal de todo. Com tantos livros por ler, não são raras as vezes em que acabo por deixar de lado os meus escritores preferidos para apostar em novos autores ou outros livros soltos... Júlio Verne, Eça de Queiróz, José Saramago, Cormac McCarthy, Tolkien, Júlio Dinis, e tantos outros, vão esperando nas estantes por releituras.
Não obstante, continuam a ter um lugar de destaque nas minhas preferências.

Quanto a Júlio Verne, tenho várias dezenas de livros seus cá em casa, a maior parte por ler. Os seus mais conhecidos clássicos (Viagem ao Centro da Terra, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, 20 000 Léguas Submarinas) alimentaram a minha imaginação e curiosidade ainda eu era miúdo. Desde então, ocasionalmente revisito as suas obras, mas não com a frequência devida.

Desta vez, decidi pegar neste romance muito pequeno (li-o num dia) baseado num fenómeno verídico: durante o pôr-do-sol, assim que o Sol cruza o horizonte, observa-se um raio verde acima do seu disco, que dura pouco mais de um segundo. O fenómeno, com uma explicação científica lógica, é relativamente raro e Verne decide dar-lhe um papel determinante na vida das personagens: reza a lenda que quem observar o Raio Verde verá claro no seu coração e no dos outros, limpando-o de ilusões e mentiras. Miss Campbell, uma rapariga mimada por dois tios bastante simpáticos (e ricos) decide não se casar até ver esse Raio! Os tios, que já lhe arranjaram um pretendente, acompanham-na portanto, ansiosos, nesta viagem para perseguir o Raio Verde.

O livro pouco tem de acção, ou sequer de história. Concretamente, o livro é um guia turístico da Escócia.
Talvez isto o torne um dos livros menos emocionantes que Verne escreveu. A história resume a várias tentativas falhadas de ver o Raio Verde, e muito rapidamente isso começa a parecer extremamente repetitivo. As personagens, excepcionalmente ricas (o que facilita imensamente a sua vida) não são particularmente criativas, apesar de adoráveis (sobretudo os tios). O resto da história é incrivelmente previsível (com a menina Campbell a apaixonar-se por um homem diferente do que os tios pretendiam inicialmente) e pouco relevante perante a lição de Geografia sobre as ilhas do Norte da Escócia.

Contudo, compreendam-me: não leio um livro de Verne há anos. Este regresso foi, por isso, bastante agradável, e o facto do livro ser tão descritivo e ter pouco ou nenhuma história não afectou de todo o meu fascínio por reencontrar a escrita de Júlio Verne. Aliás, fiquei sim com uma enorme vontade de ir já conhecer as maravilhosas ilhas que ele descreve (porque tudo aqui escrito é real!).

É Júlio Verne. Mais do que acção, oferece-nos uma dose excitante de conhecimento.
Por isso, sim, estará longe dos melhores livros de Verne, talvez seja bastante aborrecido para a maior parte dos leitores (acima de tudo os que não têm Verne como um escritor favorito). Mas as descrições das ilhas da Escócia são deliciosas, e o entusiasmo com que Verne nos guia nesta viagem turística é tão inebriante que não vejo como possa alguma vez ser cansativo.

Termino expondo o meu espanto em encontrar Verne a fazer da personagem conhecedora das Ciências Naturais a pessoa mais aborrecida de todas. Seria de esperar que um autor tão dedicado à ficção científica fizesse de um tal sábio alguém merecedor de mais atenção, e no entanto decide que o herói, o personagem cativante, seja o artista, o que prefere acreditar nos Deuses a criar as maravilhas naturais do que os fenómenos vulcânicos. Sem dúvida, Verne deixou-se levar por muitos clichés ao criar as personagens para esta história.


quinta-feira, 21 de maio de 2015

O Planeta dos Dragões, de Anne McCaffrey





Quando Anne McCaffrey foi publicada pela primeira vez na colecção Argonauta (esse Santo Graal da ficção científica na edição literária portuguesa, como é difícil encontrar actualmente num mercado controlado pelo sucesso de vendas), tornou-se uma das autoras com maior presença. Menos do que isso não era de esperar: McCaffrey foi a primeira mulher a ganhar os prémios Nebula e Hugo (importantes prémios nos géneros fantástico e ficção científica), ambos para a série sobre os Dragões de Pern.  

Alguns anos mais tarde, a Gailivro tomou controlo da publicação da autora em Portugal. Reeditou quatro livros dessa famosa série que possui mais de 20 títulos... Até interromper, indefinidamente. Infelizmente, parece-me que esta autora cá em Portugal nunca gozou da grandiosa fama que possui nos Estados Unidos (e a falta de sucesso editorial, aliada a uma enorme crise económica, é a morte do artista). Sim, pelo que me dá a entender, Pern reúne uma enorme legião de fãs e é uma referência literária e cultural no mundo da Fantasia
Apesar disso, não posso ser mesquinho: a Gailivro conseguiu publicar toda a trilogia principal, sob os títulos O Voo do Dragão, A Demanda do Dragão e O Dragão Branco. Não conheço esse trabalho de edição e tradução, mas os leitores que procuram uma publicação mais recente do que esta da editora Livros do Brasil podem facilmente encontrá-la, conhecendo assim a  história de um planeta, Pern, e os seus dragões, que combatem os terríveis Fios vindos do céu para destruírem a vida que ali habita. E devem fazê-lo: este trabalho de revisão da Livros do Brasil é bastante fraco, com frases aparentemente mal formuladas e uma impressão cheia de erros. Tenho a certeza que a Gailivro apresenta um melhor trabalho.

Para os fãs, que certamente não se contentam com menos do que a série completa, se não têm facilidade de ler em inglês podem recorrer à colecção Argonauta (que ainda é vendida por aí em livreiros mais pequenos, e na Feira do Livro de Lisboa que está para abrir em breve!), com duas trilogias e mais meia dúzia de livros isolados, todos integrados na série. Não são todos, mas parecem-me os mais importantes. 
Qualquer que seja o seu caso, saiba apenas que está perante um clássico do género. E se está curioso em conhecê-lo, qualquer que seja a sua escolha de editora, esta trilogia principal parece-me mais do que suficiente. Não vale a pena comprar os restantes volumes, a menos que tenha ficado fã.


Os dois primeiros livros da trilogia, O Voo do Dragão e A Demanda do Dragão, foram publicados em três volumes, todos com o nome O Planeta dos Dragões. A opinião que aqui escrevo é, portanto, referente a esse conjunto de dois livros no original.





O primeiro livro é um choque.
Há que atentar que, na última década, o género fantástico evoluiu muitíssimo. Não só o género ganhou popularidade (e algum prestígio) como a forma de o escrever mudou. Sobretudo, os livros de Fantasia passaram a dar um grande ênfase às suas personagens e toda a história é conduzida pelo desenvolvimento delas. Cada vez mais, o "bom" livro fantástico é aquele que mais e melhor explora os seus protagonistas, mais do que a história em si.

Ler pela primeira vez Anne McCaffrey, pelo menos o seu primeiro livro, é voltar atrás no tempo. O livro foi escrito em 1968 e não resistiu à passagem dos anos: as descrições são pouco detalhadas, as personagens abordadas sem grande profundidade e difíceis de simpatizar, a história parece em certos momentos avançar mais rápido do que devia. Este livro é um exemplo perfeito dos hábitos que se deixaram para trás na escrita fantástica. Se não o tivesse encarado como uma espécie de "artefacto histórico" na Literatura Fantástica, teria ficado ainda mais desiludido.

Lessa e F'lar, as personagens principais, são teimosas, obstinadas, mas sobretudo arrogantes, cada um à sua maneira. A persistência é uma qualidade nos heróis, é certo, mas estes são fracos de perspectiva: Lessa, uma rapariga talentosa, pouco se parece preocupar com a desgraça alheia, até daqueles que nenhum mal lhe fizeram, e a sua teimosia nasce de um ponto de vista que não abrange nada para além do seu próprio nariz. Já F'lar é um homem prepotente, que pelo bem dos Dragões e do Ninho (comunidade dos dragões e dos seus cavaleiros) parece capaz de usar e abusar do que for preciso para atingir os seus nobres objectivos. Heróis ou não, eu gosto de encontrar personagens que me façam torcer por elas. Por mim, bem que todos os habitantes de Pern podiam ter morrido com um meteorito em cima.
Dou, contudo, crédito a este casal por, de tão tempestuosos que são, se revelarem certamente um dos pares mais simbólicos que já encontrei na literatura!

Talvez tivesse compreendido melhor as personagens e a sua mentalidade se a autora se tivesse dedicado mais à descrição do seu mundo.
McCaffrey faz um trabalho louvável, impressionante, ao criar de raiz uma organização social em Pern, bem explicada, sendo um dos principais factores que distinguem este mundo de tantos outros. Pern tem uma atmosfera muito própria, evidente na escrita, certamente uma das razões pelas quais é uma série fantástica tão distinta. Mas as paisagens, os hábitos de vida dos seus habitantes, as formas, são praticamente deixadas à mercê da imaginação do leitor... Quis imaginar mais das suas cidades, da sua vegetação, assim como da beleza dos seus dragões, e encontrei muito pouco que me ajudasse.
Para terminar a minha confusão e irritação com o primeiro volume, exasperei com o hábito das meias palavras. Bem sei que o livro faz parte de uma série com vários volumes, e que é suposto deixar algumas coisas por contar para que fiquemos com curiosidade de ler os restantes livros... Mas o que temos aqui não são meras omissões, são sim frases meias ditas, situações e pensamentos que nunca são desenvolvidos ou explicados, como se o leitor devesse saber de antemão, como se fosse nosso dever adivinhar. Em vez de termos diálogos bem construídos, somos obrigados a adivinhar o que as personagens estão a dizer ou a pensar. Perturba a leitura, confunde, e faz-me questionar se não deveria ter começado por outro livro, cronologicamente anterior a este. É como se McCaffrey "escrevesse para dentro", se é que tal coisa pode existir.




O segundo livro, no meu entender, melhora. Um pouco. Melhora na escrita, melhora no que é a estrutura da leitura, o que é óptimo. Mas a acção é bastante mais lenta. Se no primeiro livro os momentos mais fulcrais da história pareceram passar demasiado depressa, neste segundo volume somos bem capazes de ter de suportar umas quantas páginas até que alguma coisa um pouco mais interessante aconteça. Pode por isso ser um pouco mais aborrecido.

Mas o maior triunfo do segundo livro da trilogia é os seus protagonistas serem muito mais suportáveis! O que não significa que sejam mais simpáticas... Significa sim que exisem novas personagens ainda mais odiáveis. E como se costuma dizer: do mal, o menos.
F'lar e Lessa continuam teimosos como tudo, e por esta altura já não esperaríamos outra coisa: são as suas pessoas, e ou gostamos ou não. Mas desta vez vão aparecer vários novos intervenientes que funcionam como antagonistas (para além dos terríveis Fios, cuja falta de inteligência e personalidade os torna uma espécie diferente de inimigo). Estes rivais são mesmo, mesmo detestáveis, com os seus egoístas objectivos, o que faz com que torcemos bastante mais pela vitória de Lessa e F'la.
A acção, contudo, é de facto bastante mais lenta e creio que pode desagradar alguns leitores. O livro concentra-se mais nas polítics, na idealização de projectos para não só combater os Fios como para fazer evoluir a sociedade de Pern, e por isso as peripécias são bastante menos entusiasmantes. Da minha parte, não tenho qualquer problema com acções lentas, sobretudo se for à custa de um melhoramento na escrita e melhores personagens.

Para finalizar, é neste segundo livro que percebemos a abordagem científica desta série fantástica. O primeiro livro pouco tem de ficção científica, mas este segundo livro (talvez por se alongar um pouco mais) dá espaço para explorar os dragões e como é que eles surgiram (através de cruzamentos genéticos), para além de desenterrar engenhos tecnológicos que, apesar de os nossos protagonistas não compreenderem bem, são utensílios modernos como microscópios, telescópios, telefones e muito mais. É bastante interessante assistir a estas descobertas, que confundem e maravilham os habitantes de Pern, e mais interessante é questionar como é que esta civilização perdeu tanto desse conhecimento avançado (o que de facto incentiva a ler os restantes livros, sobretudo os que abordam o passado mais distante).

Resumindo esta crítica, O Planeta dos Dragões é feito de um ambiente muito único e que o caracteriza. O que parece ao início banal, normal, não é, e é por isso que Pern se tornou tão aclamado. Contudo, são livros que ficaram para trás no tempo pela forma como estão escritos. A falta de descrições com mais detalhe, as personagens pouco exploradas, fazem de Pern uma saga fantástica que perdura como um clássico da Fantasia, mas que não perdura ao lado de outros grandes clássicos modernos. Uma boa leitura contudo.





(o segundo livro merecia mais meia estrela)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Máscara de Raposa, de Juliet Marillier

Na continuação de O Filho de Thor, primeiro livro da Saga das Ilhas Brilhantes, Juliet Marillier prossegue neste segundo e último volume a narrativa das aventuras de Eyvind. 
Ao atingir a maioridade, Thorvald descobre um segredo terrível e parte numa perigosa viagem em busca do pai que nunca conheceu à longínqua ilha do povo dos Facas Longas. Acompanha-o a sua grande amiga, Creidhe, filha de Eyvind o Pele-de-Lobo, que não devia participar nessa viagem desesperada, mas Thorvald subestimou-a. 
O povo dos Facas Longas não é o que os cansados viajantes esperavam. Desconfiadas, assustadas e governadas por um tirano cruel, essas gentes estranhas não explicam por que Creidhe tem de esconder os cabelos louros, ou por que há tão poucas crianças entre eles… 
Mas então nasce um bebé, e Creidhe descobre a terrível verdade sobre a maldição a que o povo dos Facas Longas está sujeito, e a única solução possível. Porque o futuro das ilhas depende de uma criança visionária: um poderoso vidente. Mas há segredos mais profundos nesta luta pela sobrevivência e uma outra maneira - inimaginável - de levantar a maldição. Uma maneira que os recém-chegados descobre. Quando já é, provavelmente, demasiado tarde...


Depois de um primeiro livro tão decepcionante, estive perto de simplesmente largar Juliet Marillier por algum tempo. Arrastei-me para a leitura deste segundo livro, e isso nunca é bom. Comecei a ler Máscara de Raposa com as expectativas incrivelmente baixas para aquilo que esta escritora deveria merecer. Comecei a ler o livro já adivinhando que não ia gostar.
Felizmente, este segundo livro revelou-se uma óptima surpresa. Este segundo livro é tudo o que o primeiro livro não é: nada de enredos imprevisíveis, nada de soluções apressadas e facilitadas, nada de personagens estranhamente pouco cativantes. Recuperei, para minha alegria, a fé nesta escritora (que há tantos anos me apaixonou com Sevenwaters).

Terão sido as expectativas muito baixas que me fizeram apreciar o livro? Talvez. De qualquer forma, acredito objectivamente que muitos elementos neste livro fazem dele melhor do que o primeiro volume.

Antes de mais, a personagem principal é feminina. É verdade que Thorvald, o rapaz que parte em busca do pai, é um dos protagonistas, mas é Creidhe que acaba por receber o maior destaque. Compreendo agora que esse foi uma das maiores falhas em O Filho de Thor, onde a personagem principal era Eyvind, um guerreiro viking. Juliet é uma excelente escritora, mas a sua voz é feminina e falha quando se esforça em colocar à frente de um livro uma voz masculina. Isso tornou o primeiro livro menos agradável do que poderia ter sido.

É bastante mais evidente neste livro a evolução das personagens. Quando embarcam na sua viagem, são sonhadores, são obstinados, são jovens meio desligados da realidade e da dureza dos obstáculos da vida. Quando a sua grande jornada chega ao fim, são adultos mais conscientes, marcados por tudo aquilo que passaram. O leitor tem a oportunidade de seguir esses passos, de perceber as pequenas transformações. Agrada-me bastante assistir a esse crescimento.

Foi também com bastante alívio que não achei este livro previsível! Quando Creidhe, Thorvald e Sam chegam às Ilhas Perdidas, tudo pode acontecer... Podemos ter muitas teorias, mas nada é horrivelmente óbvio como no primeiro livro. Melhor do que isso, não existem nenhuns objectos mágicos aparecidos do nada quando melhor convém para resolver tudo! (desculpem pela revelação, mas é incrivelmente irritante quando algo assim aparece numa escritora que deveria ter enredos bastante melhor trabalhados) Em vez disso, todas as surpresas fazem sentido. Não há revelações descabidas ou forçadas. Nada parece deslocado da história, o que é extremamente agradável quando esse foi, para mim, um dos maiores problemas do primeiro livro.
Enfim, Máscara de Raposa é o tipo de livro a que estamos habituados vindos de Marillier. Três vivas por isso.
Não sei quando voltarei a ler algo dela. Por um lado, continuo com um certo receio de me deparar com um outro livro que me desencante dela... Talvez seja altura de reler Sevenwaters e perceber se ainda existem os mesmos livros que me apaixonaram há alguns anos. Ou se o leitor é diferente.
De qualquer forma, Máscara de Raposa fez-me recuperar bastante do meu gosto por Marillier e continuarei a aconselhá-la a todos aqueles que procuram uma leitura apaixonante.


Quem também lê